caderno
Não tinha muito tempo que o ano havia começado e ela me deu um caderno. Um caderno de capa preta e dura. Disse que já havia me dado um desses, mas que eu o devia ter esquecido na bagunça do meu quarto. Ela me deu com uma única condição, que ela não quis dizer: a de que eu escrevesse sobre ela.
Ela tem esse negócio sobre ser minha inspiração, minha musa. Acha que, quando escrevo dela ou para ela, aquele frio na barriga dos nossos primeiros dias volta. Eu nunca dei o devido valor a esse frio até sentí-lo na pele no dia em que, no metrô, descansei meus lábios no seu pescoço e senti o perfume, o mesmo que ela usava no começo. Foi uma coisa que me desesperou.
Meu Deus, quantos amores foram destruídos por causa desse arrepio? Aquela sensação estranha, um misto de surpresa, paixão, amor e timidez. Aquele medo do outro que é desconhecido, só por enquanto, porém. Aquele calafrio que faz nossa nuca arrepiar, nossa fronte corar e o coração aquecer. Um aviso de que aquela pessoa é a certa.
O que me deixou inquieto foi a impossibilidade de causar esse frio depois de dois anos. E se outro cara o provocasse nela? E se ela sentisse falta e fosse procurar em outros cantos? Tá aí algo que eu não conseguiria mais fazer. Só um outro desconhecido que, aproveitando-se da sua condição de estranho, faria o corpo dela tremer e o peito acelerar.
De repente, então, eu entendi. Entendi como ela é tão mais inteligente que eu. Como ela cuida de nós e eu, acostumado com os óbvios abraços, “eu te amo” e “desculpa”, nunca entendo. Ela descobriu o jeito de fazer com que eu voltasse a ser o cara que ela ainda não conhece por inteiro, voltasse a ser o cara que ainda tem algo a mostrar, o cara que a faz se arrepiar. Ela me deu um caderno.
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/08:38 AM